O futuro da mensuração em tempos de IA

Como parte de seu programa institucional Evolution of Marketing, o WARC lançou o estudo “The Future of Measurement 2026”, mapeando as transformações metodológicas, tecnológicas e estruturais na atividade de medição de resultados de publicidade.

A base empírica e metodológica do mapeamento combina dados de pesquisas primárias com análises meta-analíticas de terceiros e dados históricos de eficácia provenientes do IPA Databank, cobrindo o período de 2004 a 2022. O relatório também integra pesquisas de atribuição, econometria e testes de incrementalidade conduzidos por consultorias e empresas de tecnologia de mensuração como Haus, Winterberry Group, Objective Platform e VidMob.

Esses dados são complementados por relatórios setoriais de adoção tecnológica fornecidos pela IAB, por meio do estudo State of Data 2026, além de dados da Association of National Advertisers, da Adobe e do banco de dados de criativos LINK AI da Kantar.

Infelizmente a América Latina não foi representada, já que o escopo geográfico da análise concentra-se em dados de mercados maduros de mídia, com ênfase nas regiões da América do Norte, Europa e Ásia-Pacífico, utilizando evidências operacionais de veículos de mídia e agências como Sky, ITV, Sellforte, Ekimetrics, Mutinex e Charlie Oscar.

De relatórios passados a sistemas de decisão

A medição de marketing passa por um período de reestruturação operacional motivado pela pressão por responsabilidade financeira e pela evolução das tecnologias de inteligência artificial. As metodologias tradicionais de relatório retrospectivo e o uso de métricas intermediárias perdem espaço para sistemas dinâmicos focados no acompanhamento de resultados de negócios diretos. Essa mudança impõe novas exigências de governança e qualidade de dados, uma vez que a automação sem critérios de transparência gera o risco de decisões baseadas em processos opacos. No cenário atual de fragmentação de audiência e migração de investimentos publicitários para grandes plataformas digitais, os veículos de mídia tradicionais, como Sky, ITV, Netflix, Disney, Global e Clear Channel, reformulam suas abordagens de vendas, migrando a proposta de valor do alcance de massa para a comprovação de impacto comercial incremental.

A televisão consolida-se como um vetor de resultados financeiros mensuráveis ao longo de todo o funil de conversão. Dados analíticos do setor indicam que as transmissões de TV, somando os formatos linear e de vídeo sob demanda das emissoras (BVOD), respondem por 54,7% do volume total de lucro gerado por campanhas publicitárias. A capacidade de segmentação no meio televisivo apresenta retornos específicos detalhados em auditorias recentes, como a análise realizada pela emissora Sky em 2.400 campanhas endereçáveis, que comprovou incrementos em vendas com a inclusão de TV endereçável no meio do funil de marketing. Complementarmente, pesquisas desenvolvidas pela empresa de atribuição INCRMNTL demonstram que a TV conectada (CTV) gera uma taxa de conversão dez vezes maior quando comparada diretamente à televisão linear. Para padronizar e viabilizar o acesso a essa estrutura de mensuração, surgem coalizões de operadoras e fornecedores de dados. No Reino Unido, o Project Lantern atua na integração de dados de painéis de televisão com dados de comportamento online para estabelecer um mercado unificado de TV endereçável, permitindo que pequenas e médias empresas operem campanhas coordenadas entre as redes ITV, Sky e Channel 4. Adicionalmente, a Nielsen firmou parceria com a RealEyes para estruturar um mercado de resultados focado na validação de dados de atenção.

Paralelamente ao avanço dos canais analógicos em direção a métricas de conversão, as plataformas digitais integraram a otimização baseada em resultados diretamente em seus sistemas de leilão por meio de ferramentas automatizadas como o Meta Advantage+ e o Google PMax. Esses sistemas utilizam modelos preditivos para ajustar lances e veiculação em tempo real com base nos sinais de conversão capturados. Auditorias externas e independentes revelam dinâmicas específicas sobre a eficiência dessas ferramentas. Uma análise realizada pela consultoria Haus aponta que, embora o PMax e o Meta Advantage+ demonstrem eficiência na geração de resultados de vendas em curto prazo, eles apresentam oscilações significativas na entrega de impacto incremental real, o que exige a aplicação de testes de controle estritos por parte dos anunciantes para verificar se as conversões reportadas não ocorreriam sem o estímulo do anúncio.

A dependência desses algoritmos automatizados diminui a visibilidade dos anunciantes sobre variáveis operacionais críticas, como estratégias de lances, distribuição de orçamentos, escolha de posicionamentos, segmentação de público e seleção de criativos. Essa falta de transparência exige frameworks independentes de validação de dados cruzados. Atualmente, a maior parcela do mercado publicitário baseia suas decisões em métricas reportadas pelas próprias plataformas de veiculação ou em modelos de atribuição multitoque, que oferecem uma visão fragmentada do retorno do investimento. A consolidação de metodologias de modelagem de mix de marketing (MMM) combinadas com experimentos de controle e dados primários estruturados torna-se o padrão necessário para isolar o crescimento incremental e orientar a distribuição do capital de mídia entre canais digitais e de marca no longo prazo.

Como AI tem transformado o cenário

A incorporação da inteligência artificial na operação de análise de dados de marketing tem alterado o fluxo de trabalho das equipes de inteligência de negócios ao assumir especialmente atividades operacionais de processamento e mineração de dados. Pesquisas conduzidas pela IAB indicam que a tecnologia atua prioritariamente na automação das etapas de coleta, limpeza, rotulagem e normalização de dados brutos provenientes de diferentes fontes corporativas antes que analistas humanos iniciem a fase de interpretação estratégica. O principal ganho é que esse processo de automação de engenharia de dados reduz o intervalo temporal entre a ocorrência do evento de mídia e a geração do insight de negócio.

Mapeamentos operacionais discriminam tarefas específicas onde a inteligência artificial executa o processamento automatizado, como a integração de dados e o monitoramento de testes em modelos de incrementalidade, a configuração de metodologias de atribuição e o processamento de rotinas de garantia de qualidade e governança dentro de modelos de mix de marketing.

A eliminação dessas barreiras operacionais manualizadas permite que as marcas aumentem a frequência de suas rotinas analíticas. Historicamente, a maior parte das empresas realiza poucos testes de incrementalidade ao ano e atualiza seus modelos estatísticos de MMM de forma trimestral, semestral ou anual, gerando diagnósticos tardios para decisões em tempo real. A automação reduz os ciclos de modelagem para um ritmo duas a três vezes mais rápido, permitindo revisões semanais ou diárias e encurtando os loops de aprendizado entre a mensuração e a execução da mídia.

Essa evolução tecnológica expande-se da automação de processos passivos para a implementação de camadas integradas de inteligência analítica baseadas em IA agêntica. Empresas especializadas em tecnologia de mensuração, como Ekimetrics, Sellforte e Mutinex, desenvolvem assistentes e copilotos inteligentes operados por interfaces conversacionais em linguagem natural para descentralizar o acesso a dados de modelagem complexos.

Esses ecossistemas são compostos por agentes dedicados a funções analíticas complementares.

  • Agente de insight: atua na compreensão do contexto do negócio para consolidar gráficos e relatórios visuais sob demanda;
  • O agente de simulação: possibilita a modelagem e a comparação imediata de cenários orçamentários alternativos, explicitando os retornos e compensações financeiras entre diferentes canais;
  • O agente de planejamento: estabelece recomendações granulares para a distribuição de verbas publicitárias, alcançando o nível de conjuntos de anúncios e táticas individuais;
  • O agente de experimentos: gerencia o ciclo de testes de incrementalidade e processa o histórico de dados corporativos para identificar testes executados involuntariamente no passado, reduzindo a necessidade de novos investimentos em auditorias de campo.

Sob essa dinâmica agêntica, a operação adquire autonomia funcional, mantendo a supervisão humana concentrada na parametrização estratégica, no estabelecimento de regras de governança e na aprovação final das alocações de capital.

No horizonte de desenvolvimento metodológico, também estuda-se a transição dos modelos econométricos customizados e exclusivos para os chamados modelos de fundação aplicados ao MMM, espelhando a arquitetura de grandes modelos de linguagem como GPT e Claude. Um modelo de fundação para mix de marketing processa bilhões de interações agregadas de múltiplos anunciantes, categorias econômicas e períodos de mercado para criar uma base de conhecimento estatístico generalizado sobre a dinâmica dos canais de mídia. Fornecedores como Arima e Mutinex testam o uso de aprendizado federado e geração de dados sintéticos para estruturar essas ferramentas sem violar a privacidade dos dados de marcas concorrentes.

Esse formato visa mitigar limitações históricas do MMM tradicional, como o viés de dados do passado que não capturam mudanças abruptas de comportamento, a lentidão na atualização dos ciclos analíticos e a necessidade de grandes volumes de histórico de dados que impedem o uso da metodologia por pequenas empresas ou para a mensuração de novos canais de mídia sem histórico de veiculação.

Contudo, a escalabilidade dessas ferramentas de inteligência artificial é condicionada pela qualidade de sua infraestrutura de dados. Modelos matemáticos sofisticados alimentados por bases de dados inconsistentes ou fragmentadas tendem a gerar análises estatísticas formalmente convincentes, porém incorretas. Pesquisas setoriais indicam que 67% das companhias apontam a confiabilidade dos dados como o principal obstáculo para a transição de projetos piloto de inteligência artificial para sistemas de produção comercial regular.

Creative Intelligence

Paralelamente à análise de canais de veiculação, a estruturação de inteligência criativa surge como um vetor de otimização de resultados de negócios através do uso de machine learning para categorizar, analisar e mensurar componentes visuais e conceituais de anúncios em larga escala. Estudos consolidados pelo Google apontam que a qualidade das peças publicitárias é responsável por até 70% do desempenho final de uma campanha de marketing.

Apesar de ser identificado como o maior multiplicador de lucratividade sob controle direto da marca, o elemento criativo permanece historicamente “submensurado”, dependendo de intuição ou de indicadores secundários de engajamento e cliques na internet. Testes conduzidos pelas plataformas Objective Platform e VidMob comprovam que criativos de baixa qualidade causam perdas de receita e de percepção de marca aceleradas, com impactos negativos que superam proporcionalmente os ganhos incrementais obtidos por peças de alta qualidade.

Em plataformas de vídeo digital e redes sociais como TikTok, Meta e Pinterest, onde o consumo de mídia é acelerado e dinâmico, criativos de alto padrão geram incrementos de até 36% em awareness e 28% em vendas, enquanto criativos de baixo desempenho reduzem a eficácia de conversão em patamares que chegam a 45% negativos.

A estruturação tecnológica da inteligência criativa organiza-se em um ecossistema integrado que compreende a ingestão de múltiplos formatos publicitários como vídeo, imagens, arquivos de áudio e texto em um motor central de processamento. Esse motor converte os ativos analógicos em dados estruturados através de tags taxonômicas e metadados que identificam características internas das peças.

Na TV, análises baseadas na plataforma LINK AI da Kantar demonstram o impacto de variações específicas, como a técnica de foco centralizado no produto (Spotlighting), que acarreta variações diretas na pontuação de persuasão do anúncio a depender do segmento econômico, gerando acréscimos de sete pontos no segmento médico e perdas de dois pontos no varejo tradicional. Esse nível de dados permite o teste preditivo antes do lançamento de campanhas de mídia e a otimização de elementos estéticos durante a veiculação.

O avanço desse modelo operacional enfrenta barreiras estruturais ligadas à complexidade de atribuição de dados de ativos criativos (desafio citado por 61% das marcas e 65% das agências), limitações de recursos orçamentários e à ausência de padrões de métricas unificadas no setor de publicidade. O relatório aponta que menos de 25% dos profissionais de marketing utilizam ferramentas tecnológicas integradas para mensuração criativa.

Além disso, a separação organizacional entre as equipes responsáveis pela produção artística e os departamentos focados na compra de mídia limita a eficiência das análises de dados. Modelos operacionais propostos por agências digitais como a Charlie Oscar demonstram que a convergência entre estrategistas criativos e compradores de mídia sob um fluxo contínuo de hipóteses e validações mensais cria uma base de aprendizado institucionalizado de longo prazo, unificando a preservação da identidade visual da marca à eficiência técnica exigida pelos algoritmos de conversão das plataformas digitais.

Desafios e o olhar adiante

A consolidação das tendências para o cenário de 2026 indica que o futuro da medição de marketing demanda transformações interdependentes em infraestrutura tecnológica, frequência metodológica e cultura corporativa. O primeiro desdobramento crítico dessa evolução diz respeito à aceleração operacional e à criação de novos ciclos de aprendizado. A automação analítica reduz significativamente o tempo de processamento entre a captação do dado de mídia e a sua respectiva aplicação prática. Ao aumentar a frequência de atualização de modelos de mix de marketing e de testes de incrementalidade em até três vezes, os sistemas baseados em inteligência artificial permitem que as empresas substituam diagnósticos trimestrais ou semestrais lentos por um fluxo de otimização contínua diária ou semanal. Essa mudança redefine a utilidade da mensuração, que deixa de atuar como um relatório de eventos passados e assume a função de um motor preditivo integrado à tomada de decisão em tempo real.

No plano da arquitetura de dados, a viabilidade técnica dessas inovações preditivas é inteiramente condicionada à consolidação de bases de dados primários (first-party data) robustas, higienizadas e estruturadas. Diante do declínio continuado de sinais de terceiros no mercado publicitário, o relatório aponta que a confiabilidade e a estabilidade da infraestrutura de dados interna figuram como o principal obstáculo corporativo para a migração de projetos piloto de inteligência artificial para sistemas de produção comercial regular. Uma vez que os algoritmos agênticos e fundacionais dependem diretamente da integridade do material que os alimenta, bases de dados falhas ou omissas induzem modelos avançados a gerar diagnósticos estatísticos formalmente convincentes, porém desprovidos de fundamentos causais e empíricos reais.

Essa necessidade de validação técnica orienta a terceira diretriz conclusiva do estudo, que foca no estabelecimento de parâmetros rígidos de governança externa e auditoria isenta. A automação em escala imposta por ferramentas proprietárias de ecossistemas fechados exige que os diretores de marketing apliquem testes de controle e metodologias de incrementalidade independentes para verificar o real impacto de seus investimentos. Análises desenvolvidas pela consultoria Haus demonstram a existência de lacunas e discrepâncias estruturais nos resultados de conversão declarados unilateralmente pelas grandes plataformas digitais, sublinhando que frameworks independentes de mensuração são essenciais para proteger a alocação de capital e dar segurança jurídica e financeira às decisões de investimento em mídia.

Por fim, o ganho de eficiência no composto de marketing exige uma reestruturação profunda na forma como o mercado quantifica e organiza seus ativos tangíveis e intangíveis. No ecossistema de canais tradicionais, a proposta comercial baseada estritamente no alcance analógico de massa esgotou-se diante da dominância do ambiente digital. Veículos de mídia legada, com destaque para a televisão, são forçados a demonstrar seu valor traduzindo conceitos institucionais como confiança, contexto e atenção em métricas de retorno financeiro granular, margem de lucro e conversão direta ao longo de todo o funil.

Simultaneamente, no ambiente de produção publicitária, a inteligência criativa impõe o término do uso corporativo da intuição pura. O ativo criativo passa a exigir processos de ingestão, tagueamento taxonômico e análise de performance tão estruturados e rigorosos quanto as variáveis de mídia. Essa integração técnica é indispensável porque evidências empíricas comprovam que criativos de baixa qualidade destroem a rentabilidade das campanhas em uma velocidade e intensidade significativamente superiores aos ganhos incrementais obtidos pelas peças de alto padrão.

A superação desses desafios operacionais é limitada pela persistência de silos departamentais que apartam os profissionais de análise, os planejadores de mídia e as equipes de desenvolvimento artístico. A operacionalização de uma estrutura de decisão ágil e responsiva depende de aproximar essas disciplinas para que colaborem desde a etapa de planejamento inicial e utilizem uma base unificada de dados de desempenho. O preenchimento dessa lacuna organizacional passa pelo desenvolvimento de novas competências híbridas e pela estruturação de fluxos paralelos de trabalho, estabelecendo um ecossistema integrado capaz de converter o investimento publicitário em um vetor previsível e auditável de crescimento de negócios.

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