Como enxergar estratégia em meio à pandemia

 

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Estratégia é uma abordagem tão interessante e vasta que pode ser aplicada a múltiplas estratégias, como negócios, jogos, guerras, política … e no combate ao nosso maior inimigo atualmente: a Covid-19. Estratégia é uma lógica de pensamento que vai além de objetivos, metas e métricas, e por isso vamos mostrar aqui as muitas camadas de estratégia utilizadas por governos e países durante uma pandemia, desde as primeiras medidas de contenção até a vacinação.

1ª parada: como enfrentar o vírus?

A Organização Mundial da Saúde decretou oficialmente que o Sars-CoV-2 se tratava de uma pandemia – ou seja, a contaminação estava em todos os continentes do planeta – em 11 de março de 2020. Desde então, [quase] todos nos voltamos a uma questão elementar: como enfrentar o vírus?

Diante do que já se sabia sobre os tipos existentes de coronavírus e com as novidades da nova cepa, muitos eram os caminhos possíveis para os governos lidarem com medidas que minimizassem os seus efeitos. A maioria dos países leu o cenário de uma determinada maneira: se as pessoas se contaminarem juntas umas das outras, o sistema de saúde ficará sobrecarregado e acontecerá um colapso ainda maior, não conseguindo atender nem outros doentes.

Então os esforços se voltaram a medidas preventivas para que não houvesse picos de contaminação maiores do que os sistemas de saúde conseguissem atender. Buscou-se o tão falado “achatamento da curva” de contágio.

Na Nova Zelândia, por exemplo, a estratégia se manifestou via distanciamento social, fechamento de fronteiras, utilização de máscaras, álcool gel nas mãos, testagem em massa e isolamento de infectados e rastreamento de seus contatos, entre outras medidas. Foi considerado um case de sucesso, tanto que no país, a luta contra a Covid-19 é chamada de “The team of 5 Million” (a equipe de 5 milhões de habitantes), em referência à união da população do país, que apoia a estratégia do governo. Alguns fatores contribuíram para o sucesso dessa empreitada, que deixou um número de mortos baixo e a economia equilibrada em comparação a outros países, como a geografia do país (um conjunto de ilhas), uma população com alto nível de educação, uma atuação forte do governo com uma boa comunicação e que se pautou pela ciência para tomar decisões. Basicamente, quase todos os países seguiram as medidas semelhantes a dos neozelandeses, com a balança pendendo para o lado de quem conseguiu executar melhor suas ações.

Já o Reino Unido, por exemplo, de saída optou por uma estratégia diferente, sem isolamento social com o objetivo de não minar a economia. A intenção era deixar as pessoas expostas ao vírus para chegar à imunidade de rebanho. Essas medidas duraram pouco, porque o custo humano foi muito alto. E aqui está um grande aprendizado: você pode tomar caminhos estratégicos diferentes para chegar ao mesmo objetivo, mas todos esses caminhos têm um custo. No caso da pandemia, pode ser o custo econômico ou o custo de vidas humanas. E a Grã-Bretanha gerou um custo humano impagável. Logo, a estratégia foi por água abaixo, inclusive com o primeiro-ministro britânico Boris Johnson ficando doente. A Suécia foi um país que seguiu pelo mesmo caminho e precisou alterar a rota depois.

As estratégias de isolamento

Passada a surpresa inicial da difusão do vírus e entendendo que a estratégia mais correta era a do achatamento da curva, as decisão ganhou outra natureza: os tipos de isolamento possíveis. Eles poderiam ser resumidos a três: o isolamento vertical, o horizontal ou o que podemos chamar de clusterizado.

O isolamento vertical, defendido no início pelo Brasil, consistiu em isolar as pessoas mais velhas e com comorbidades, pois se mostraram as mais vulneráveis aos efeitos do vírus. Coreia do Sul e Turquia implantaram essa modalidade. Porém, um dos pontos negativos é que outras pessoas que não estavam isoladas acabavam em contato com as em isolamento e as coisas não funcionaram tão bem.

O isolamento horizontal – lockdown – é o isolamento completo, onde o governo toma medidas rígidas para impedir a circulação das pessoas, como o fechamento de estabelecimentos comerciais. Foi adotado pela maioria países, principalmente no início da pandemia, quando havia poucas informações sobre como lidar com a situação. E é muito do que se faz até hoje, no abre e fecha moderado pelo aumento ou diminuição de casos e mortres.

E o isolamento clusterizado que consiste em isolar quem apresenta sintomas da Covid-19 e, por meio do rastreamento de contatos, isolar as pessoas que tiveram contato com os suspeitos ou infectados. Para fazer isso de forma eficiente, é necessário uma boa execução da dinâmica de rastreamento e isolamento das pessoas, com o governo colocando seus recursos de forma massiva nisso. O Japão foi um exemplo desse modelo de atuação

Novamente, é importante perceber como cada uma dessas estratégias tem suas vantagens e desvantagens e como é necessária uma coordenação de recursos e ações específicas para adotar cada uma delas.

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As diferentes estratégias para criar a vacina

Conforme os desdobramentos da pandemia afetavam cada vez mais os países, tanto economicamente quanto em aumento de mortes, ficou claro que, no fim das contas, a única estratégia para erradicar de vez a ameaça da Covid-19 era a vacina. Com as primeiras amostras coletadas do vírus, os laboratórios entraram numa corrida contra o tempo para desenvolver uma vacina que pudesse imunizar as pessoas.

No Brasil, a vacinação iniciou em fevereiro de 2021, e atualmente estão autorizados os imunizantes Covishield, desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, e produzida no país pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); a vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac; e a vacina Cominarty, desenvolvida pela farmacêutica norte-americana Pfizer em parceria com a empresa de biotecnologia alemã BioNtech

Também para criar a vacina, os cientistas utilizaram pelo menos três estratégias diferentes para chegar ao mesmo objetivo:

  • Tecnologia genética do RNA mensageiro (Pfizer): uma tecnologia mais utilizada na produção de vacinas para animais e que faz com que as células saudáveis do corpo produzam a mesma proteína que o coronavírus utiliza para entrar nas células. Ao fazer isso, o sistema imune é obrigado a produzir anticorpos que, durante uma infecção, podem neutralizar a proteína do verdadeiro coronavírus e impedir o desenvolvimento da infecção;

  • Uso de adenovírus modificados (AstraZeneca): consiste em utilizar adenovírus, que são inofensivos para o corpo humano, e modificá-los geneticamente para que atuem de forma parecida com o coronavírus, mas sem risco para a saúde. Isso faz com que o sistema imunológico treine e produza anticorpos capazes de eliminar o vírus caso aconteça a infecção;

  • Uso do coronavírus inativado (CoronaVac): é utilizada uma forma inativada do novo coronavírus que não provoca a infecção, nem problemas para a saúde, mas que permite ao corpo produzir os anticorpos necessários para combater o vírus.

No fundo, estratégia pode se enxergar até nesses aspectos mais biológicos. Cada equipe de cientistas usou um caminho diferente, uma abordagem específica para nos imunizar e vencer.

Aqui também poderíamos abordar as estratégias dos governos para produzir e adquirir esses imunizantes. É notável como países emergentes como Rússia, China e Índia correram para produzir suas próprias vacinas não só para imunizar sua população, mas como um instrumento de geopolítica internacional, aumentando suas zonas de influência.

Nesse sentido, o Brasil poderia ter feito a mesma coisa, já que conta com capacidade tecnológica e industrial para tal. Mas preferiu adotar outra estratégia, colocando seus investimentos na compra de vacinas chinesas e inglesas prioritariamente. Hoje, sofremos com a dependência desse fornecimento para imunizar nossa população e perdemos a oportunidade de ampliar e estreitar relações com diversos países ao redor do mundo, como um potencial fornecedor de vacinas e matéria prima.

E agora, como vacinar?

Com as vacinas aprovadas para uso, chegou a hora de montar as estratégias de vacinação da população – o que ganha proporções ainda mais desafiadoras em um país com a dimensão, a população e as particularidades do Brasil.

Por aqui – como na maioria dos países ao redor do mundo – o Plano Nacional de Imunização priorizou as pessoas consideradas mais vulneráveis primeiro, como os idosos e as pessoas com comorbidades, junto com profissionais considerados prioritários para a sociedade, como médicos e enfermeiros.

Porém, até aqui há estratégias distintas. A Indonésia, por exemplo, priorizou a imunização de trabalhadores entre 18 e 59 anos. O objetivo foi barrar mais rapidamente a disseminação do vírus, uma vez que são as pessoas que precisam circular mais e acabam levando a contaminação às pessoas mais velhas que estão em casa, por exemplo.

Outra discussão é sobre como apenas o critério etário acaba privilegiando as pessoas que têm maiores condições de se tratarem se infectadas. Isso porque há uma associação grande entre renda e expectativa de vida. Então, é natural que se vacine mais e mais rápido pessoas com maior poder aquisitivo e hoje já é mais do que comprovado como as pessoas mais pobres são as que mais morrem na pandemia. Nesse sentido, caberia pensar em outro tipo de estratégia, que mitigasse a imensa desigualdade social, especialmente em países como o Brasil?

Nas diferentes frentes da luta contra a Covid-19, há camadas de estratégias distintas, formas diferentes de pensar, voltadas ao mesmo objetivo. No fim das contas, a estratégia pode ser encarada como uma bifurcação, onde é preciso escolher um caminho diante de diversas opções possíveis.

E, como gostamos de dizer nas aulas da Sandbox, a estratégia é algo invisível – assim como o vírus. Ela não é concreta, ela é uma lógica, um pensamento, que se manifesta por meio de ações concretas. Com um olho bem treinado para enxergar a estratégia ocorrendo, é possível vê-la acontecendo em qualquer segmento, até na questão de saúde pública.


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